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On the road: Porta 33, Escola da Vila, Francisco Janes e Chain Reaction

A comida sacia tanto mais quando é partilhada e acompanhada de conversa. Não será em vão que um dos grandes tratados da filosofia ocidental, O Banquete de Platão, tenha a comida como centro da oralidade clássica e de um labiríntico debate sobre a mesa, regado com o fogo do vinho dionisíaco, mas temperado com o juízo apolíneo. A comida conforta, a bebida liberta e a presença dos muitos convidados asseguram o deleite da partilha e do diálogo. Os introvertidos soltam-se, os extrovertidos contêm-se; conversas cruzadas e entrecruzadas; segredos confiados no meio de gargalhadas concupiscentes; novas amizades, velhas amizades; memórias reavivadas no calor da nostalgia. É um ritual – tão superficial quanto os ditames das boas maneiras, tão profundo quanto o debate sobre as fundações dos Estados.

Sentamo-nos à mesa e deixamos a magia da comida fazer o seu trabalho ancestral, social e biológico que para os antigos era natural e que os modernos aprenderam a esquecer. Trocamos de pratos, passamos a comida entre mãos, mantemos os copos bem cheios e, com o tempo, quando a comida desaparecer e as migalhas se espalharem no chão, comemos de uns e de outros, comemos uns e outros. A vida acontece.

Se quisermos manter uma comunidade coesa, nada melhor que esta ritualidade. Se quisermos derrubar um regime, nada melhor que a heresia de uma refeição em grupo.

É de espantar que a comida, tão rotineira, tão elementar, continue a ser a força mais radical que as civilizações alguma vez podem vir a conhecer. Talvez porque as refeições à mesa perderam a qualidade agregadora de outrora. Talvez porque nada de novo e semelhante a substituiu como cola ou cimento social. Talvez ainda porque o que é provado e comprovado tenha de ser, de tempos a tempos e paradoxalmente, renovado de forma igual, relembrando as lógicas pretéritas que estruturam comunidades: partilha, empatia e generosidade.

Dessas memórias, guardamos impressões, pinceladas fugazes de um encontro intenso e prazeroso.

 

O ponto de encontro foi a PORTA33. A ocasião, o projeto Chain Reaction, de Elizabeth Prentis e Hugo Brazão, cujo objetivo é estabelecer pontes de diálogo entre artistas, curadores, instituições, durante as muitas refeições programadas, reunindo numa “assembleia da abundância” – projeto de Jesse James e do Walk&Talk – pensamento e perspetivas de futuro otimistas. O propósito é contido e inscrito dentro de uma discursividade crítica e institucional, mas o alcance é bem maior: a construção ou consolidação de uma comunidade.

Sentaram-se à mesa mais de vinte pessoas, que trocaram experiências sobre o sistema da arte regional e nacional, mostrando o que têm desenvolvido nos últimos meses. O pesadelo logístico foi sendo compensado com a satisfação dos comensais e o bom humor.

Antes, nas salas de exposição da PORTA33, Francisco Janes mostrava o resultado de uma residência na Escola da Vila, no Porto Santo – um território extraperiférico, em tudo limitado pela geografia. A exposição parte da mesma base de trabalho de Chain Reaction: a comunidade local.

Vídeos, fotografias e sons servem de referência para a construção de um lugar que, ao momento, parece existir nas bordas incertas de um sonho. A edição dos vídeos segue a estrutura evocativa de um ensaio poético e onírico, e a montagem conduz a uma imersão nos trechos fílmicos que Janes encadeou durante a sua longa residência na Escola da Vila. Há uma elementaridade imediata: o vento, a lua, a luz do sol. Os vídeos têm qualquer coisa de peripatético, de errante; um devaneio pela orla do mar, pelos dragoeiros e fenómenos geológicos de Porto Santo; uma meditação mediada pela lente da câmara, contemplando os efeitos do tempo sobre as coisas vivas.

O som acompanha o vídeo, para depois se desprender na escuridão. A paisagem natural e humana é também uma paisagem sonora. Na ausência da imagem, o som serve de referente para a imaginação, impele o espectador a completar a composição multimédia e fenomenológica desenhada por Janes.

Simultaneamente espaço cultural e comunitário, a Escola foi resgatada do esquecimento e dignificada pela PORTA33. Não fosse a boa vontade e energia dos seus fundadores, Cecília e Maurício Reis, a Escola seria hoje um parque de estacionamento, acrescentando aridez à já naturalmente árida ilha. O projeto Escola do Cinema Natural, que Francisco Janes montou com os fundadores da PORTA33, é o exemplo perfeito da capacidade pedagógica da arte e das instituições de arte, que servem aqui de orientadores, facilitadores e potenciadores, gerindo aptidões, estimulando a curiosidade e encontrando espaço para que valências despertem da dormência a que foram votadas por inexistência, até então, de recursos e estruturas capacitadas para tal. Apercebemo-nos, deste modo, que os vídeos de Janes resultam de muitos trechos captados pelos alunos que integraram a Escola do Cinema Natural, e que a polissemia e polifonia que incorporam encontram aí uma justificação. Janes assume o risco de tratar resultados que podem não ser totalmente satisfatórios, mas o objetivo nunca é sobre o resultado final. É antes trabalhar uma forma radical de generosidade, que ultrapasse cismas e preconceitos relativos à atividade artísticas, propondo uma práxis mais comunitária que solipsista.

Os fotogramas sucedem-se. Há um brilho na fugacidade do tempo. Cada vídeo é um rizoma que se expande paulatinamente, sugerindo múltiplas narrativas e desenvolvimentos. O artista é apenas um facilitador, um mediador, alguém que puxa pela formação e a educação informal ao longo da vida. É possível que esse investimento se quede por aí, como um ato isolado. Mas se assim for, já valeu a pena. Outras iniciativas serão postas em marcha, diferentes, por certo, mas com a mesma intensidade e paixão pela vida, em que a arte sai de si mesma e se deixa contaminar com a incerteza e evanescência do quotidiano, dos fluxos vitais, humano e não-humanos. O que há de belo nestes vídeos e sons é o crepitar de vida, a imperfeição da mão que quer fazer – e fazer bem – mas que falha na perfeição. Jacques Ranciére saberia colocar esta reflexão de forma mais eloquente, com toda a certeza. No entanto, também a escrita e a linguagem são perfeitamente imperfeitas.

De volta à mesa, uma garrafa é entornada, braços atravessam-se pelos pratos em busca de mais comida e bebida. A conversa é sempre inesgotável. Ficamos a conhecer o projeto Trégua e o trabalho que têm desenvolvido com pessoas privadas de liberdade. Há dúvidas morais e éticas que nos fazem questionar a pertinência das prisões, do seu propósito e da vida possível entre grades. Poderá a arte servir de elo entre duas realidades tão assimétricas? Poderá a arte servir os propósitos de uma inserção social, quando muitas das instituições prisionais parecem falhar nessa matéria? Trégua é um projeto curioso, profundamente político e radical no que se faz em Portugal e dentro das práticas sociais e híbridas da arte.

O Coletivo Quimera interpela-nos com a realidade artística local e o trabalho que jovens têm de fazer para se fazerem mostrar. Quando as oportunidades não aparecem, inventam-se, em conjunto, buscando e usando as forças de cada um. A RAUM apresenta um exemplar de uma das suas edições. O formato desconstrói a sequencialidade da publicação, com folhas solta e desenhos e textos que se justapõem desafiando a lógica habitual do livro.

As plantas aéreas baloiçam no teto em busca de humidade. Todos falam do jardim suspenso da PORTA33 e de Cecília – um lugar mágico, dizem. E então subimos as escadas, em privado, e cuidadosamente saltamos para cima de um telheiro repleto de canteiros e vasos verdejantes: buganvílias, estrelícias, mais plantas aéreas, suculentas. A natureza encontra os seus caminhos em alicerces, em vigas, pilares e redes. Os gatos caminham ágeis pelo telhado de vidro. Sentamo-nos neste paraíso improvisado e falamos de flores e plantas e paisagens. Saímos do tempo e estranhamos a realidade. Tudo é abundante, nesta ilha.

 

Residência, de Francisco Janes, pode ser visitada na PORTA33 até junho de 2025.

José Rui Pardal Pina (n. 1988), mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Curador do Diálogos (2018-), um projeto editorial que faz a ponte entre artistas e museus ou instituições culturais e científicas, não afetas à arte contemporânea.